Poucas histórias da infância na Índia viajaram tão longe quanto a de Krishna. Ela começa à meia-noite, em uma prisão em Mathura, com uma criança nascida sob ameaça, e continua viva em templos, canções, cozinhas e ruas movimentadas mais de dois mil anos depois.
Segundo a tradição, Krishna nasceu de Devaki e Vasudeva, que haviam sido presos pelo rei Kansa após uma profecia anunciar que o oitavo filho de Devaki seria responsável por sua queda. Na noite em que Krishna nasceu, as portas da prisão se abriram, os guardas adormeceram e Vasudeva carregou o recém-nascido através da tempestade, atravessando o rio Yamuna para levá-lo em segurança até Gokul. Ali, criado por Nanda e Yashoda, o menino destinado a derrotar um rei passou a ser lembrado com o mesmo carinho por algo muito mais simples: seu amor pela manteiga.
As histórias de Krishna roubando makhan com seus amigos deram à Índia uma das tradições mais vibrantes do Janmashtami. Durante o Dahi Handi, especialmente em Maharashtra, potes de barro cheios de coalhada ou manteiga são pendurados bem acima das ruas, enquanto equipes de Govindas sobem sobre os ombros uns dos outros, formando pirâmides humanas para alcançá-los. Em Mumbai, a travessura da infância se transforma em espetáculo: os tambores ressoam, multidões se reúnem, as pirâmides sobem e desmoronam e, por fim, alguém consegue alcançar o handi.
O que começou como a história de uma criança tentando alcançar um pote de manteiga sobreviveu como algo maior — uma celebração da brincadeira, da devoção, da coragem e do esforço coletivo.
No fim das contas, Krishna Janmashtami recorda um deus por meio das histórias de uma criança. E o Dahi Handi garante que a Índia ainda possa continuar brincando junto.